18 palavras e mais umas Tem palavras que eu gosto de graça. Canção é uma delas. Ordinária é outra, comum, habitual, repete, repete, regular, constante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro terrível, ou então ridícula, que a minha afilhada menor pronuncia ri-dí-cu-na, com N, do jeito mais fofo do mundo e sem ter muita ideia do que significa. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que cabe em qualquer lugar e quase nunca decepciona. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável (e troço é também uma palavra incrível, não?).
Razão é uma palavra que eu gosto de graça, que nem canção, ordinária, planta, pepperoni, tatuagem, liberdade, chocolate, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Tempo é outra palavra ótima, enquanto teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda.
Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, a capacidade de andar junto apesar do descompasso, a percepção de que aceitar às vezes é preciso e funciona melhor que qualquer força. Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita, que quando vira real assusta ao mesmo tempo em que diverte, desordena ao mesmo tempo em que faz voltar a sorrir, escancara a necessidade de pintar a parede de cor de abóbora e encontrar um sentido diferente daquele.
Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Rei e o Erasmo emocionados no Maracanã, um ombro para ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, um par de pernas pra bater no shopping e uma dose extra de disposição para beber Absolut de baunilha. Amigo é pra tratar do existencialismo e das inexistências, cantar desafinado, falar a verdade enquanto come a pizza que ficou de ontem. É pra rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder o rumo e de noite rodar a praça cantando até as piores canções.
Amigo é pra cortar o cabelo em solidariedade, emprestar roupa e dinheiro sem juros, chorar junto e rir até a barriga doer, viajar pra Europa (ou pelo mundo, sem sair da varanda), enterrar os que nos deixam cedo e puxar a orelha quando precisa, ver "Por uma Vida menos Ordinária" de novo e suspirar pelo dentinhos amarelos do Ewan McGregor, telefonar de madrugada ou marcar um almoço na praia para celebrar o nada. É aquele poema todo do Vinicius.
"Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí E se tornaram alicerces do meu encanto pela vida"
Encanto é uma palavra que eu gosto de graça, o sorriso da minha amiga diante das histórias que ouve, a capacidade que ela tem de dar um valor imenso às coisas que antes pareciam pequenas, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom, por pior que seja.
Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira e um monte de discos em volta, uma garrafa de vinho, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.
Escrito por ana às 00h12
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