todo sentimento


Estamos velhos, meus velhos

Hoje reencontrei três antigos colegas da faculdade que não via há algum (muito) tempo. Conclusão número um: de uma maneira ou de outra, reencontros são quase sempre muitíssimo proveitosos. Conclusão número dois: eu, eles e aqueles de quem lembramos seguimos rumos um bocado diversos, ouvimos canções diferentes, alimentamos esperas e esperanças distintas, assistimos a filmes e histórias que têm pouquíssimo em comum, escolhemos caminhos tão distantes quanto o reino da princesa Fiona, a praça central de Porto Alegre ou os jardins secretos do leste europeu.

Daí lembrei que o mundo tem mesmo uma lógica curiosa, porque você passa meses ou anos vendo alguém todos os dias, ou porque estuda junto ou porque trabalha junto ou porque vive junto ou porque ama tanto que não sabe viver sem ou porque não tem outra opção, e um dia não vê mais, não encontra mais, não ama mais, não vai à festa de despedida, ao casamento ou ao aniversário de 30 anos, sabe de quem casou ou teve filhos na fila do supermercado e pronto, acabou-se: vão-se todos para o baú das memórias intocadas, e outros chegam, encontram, amam, vivem, trabalham, decepcionam ou consertam.

Conclusão número três: estamos velhos, meus velhos, mas a vida é boa.



Escrito por ana às 00h28
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É mais fácil engolir o sol ou uma dúzia de limões?

Palmas pro Armando Antenore na coluna Máscara da Bravo! deste mês. Com a sensibilidade de sempre, ele entrevista o "sujeito" (assim mesmo, com aspas) que quis engolir o sol, engolir mesmo, sem mastigar, sentir o sol inteiro dentro da barriga, filho de mãe costureira e de pai construtor de imóveis, visitante de um lugar secreto que fica perto e longe e onde as cores não se parecem com as do nosso universo, morador do mundo que prefere a palavra abandonar ao verbo partir. O amigo zombou dele, disse que engolir o sol era fácil, que difícil era engolir uma dúzia de limões sem fazer careta. Mas ele teimou, argumentou que o sol é quente, bem mais difícil de engolir.

O texto inteiro está aqui.



Escrito por ana às 00h28
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Um texto antigo sobre o sol, a propósito

Ouviu cada canção daquele disco como se elas guardassem toda a verdade sobre o mundo todo, a cidade em sonhos, os pés que não tocam o chão, não sentir nada parecido com qualquer paixão, fechar a janela, ouvir os sons desiguais, o tempo que corre no meio da noite e apaga uma história inteira de amores e desesperos e perdas e traumas e lembranças.

Viu a cidade em sonhos, os pés sem tocar o chão, a ausência, a insônia, a solidão, a música, qualquer uma, às vezes todas ao mesmo tempo; viveu cada canção daquelas, da primeira até a última. Sonhou que era tempo de reencontrar amigos, ouvir as vozes do mato como quem abria o coração, falar do tempo que passou depressa, velho e morto como os sonhos, as ausências, as solidões e as insônias.

Seguiu o sol.

Sua bandeira dizia quem no fundo ela era, algum tanto além do que se via, das exigências, das poses que escondiam a verdade: viajante querendo chegar, caçadora da eterna canção, criatura de todo lugar; carregava a emoção de um vôo livre sobre Paris, pura invenção, a loucura, o palco, o bis, vozes, acordes, palavras e sons, o prazer de tocar é a resposta, todas as cores, todos os tons. Entendeu que, se a vida quer o pé no chão, a poesia pesa menos que o ar.

Anoiteceu e, quando aconteceu, seguiu o sol.

O disco é Siga o Sol, do 14 Bis.

Vitória, março de 2007



Escrito por ana às 00h26
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