todo sentimento


amy, b side

Eu tinha feito uma primeira versão do texto sobre a Amy Winehouse que publiquei outro dia na coluna Feminices, da Paradoxo (http://www.revistaparadoxo.com/materia.php?ido=5526). Resolvi postar aqui, pra acompanhar a linda (pra variar) ilustração que a Mariana me mandou e infelizmente não deu tempo de colocar lá.

ilustração: mariana mauro www.flickr.com/photos/marianamauro

Meu ex-vizinho costuma dizer que a Amy Winehouse é a mulher ideal: canta bem, tem estilo e bebe junto. Verdade que o beber junto dela ultrapassa (e muito) os limites estabelecidos pelo bom senso e pela Organização Mundial das Mentes Sãs em Corpos Sãos, e que o resto da vida acompanha o (des)ritmo, mas a dona encrenca é de fato adorável, né não?

 

Cool até o caroço, ela exibe o modelão anos 60 com flor no cabelo e tudo, ri da própria estupidez, confessa os próprios vícios, chora os amores frustrados acabada no chão da cozinha, celebra a boemia que, de um jeito torto, dá algum sentido a sua vida e foda-se o resto.

 

A Amy – o Zé tem razão – é demais. Matou de cara a charada de que o amor é um jogo perdido, aprendeu na marra que às vezes precisa morrer uma centena de vezes, entendeu que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto é difícil colocar as coisas em ordem com a sua (dele) voz na minha (dela) cabeça. “What kind of fuckery is this?”.

 

Ela sofre, coitada.

 

“Depois do último, acho que é impossível um homem me magoar. Não dói a sério, é só incrivelmente irritante”.

 

Boto fé.

 

Porque o fim de determinados amores de fato irrita mais que dói, e nessas horas, minha amiga, fica difícil saber o que fazer com o Diário do Futuro Compartilhado, porque não há mais futuro, muito menos partilha; com o retrato do sorriso azul, porque não há mais retrato, muito menos azul; com a saudade absurda que franceses, chineses, paquistaneses e dinamarqueses nem têm no dicionário e a gente sente que é uma beleza.

 

Diva inesperada, a Amy usa suas canções como terapia escancarada: confusa e estranha (engraçado, não?), coração roubado, apenas bons amigos, deprimida como uma enxaqueca (hein?). A comparação é bizarra, mas confesso que não me sai da cabeça: ela me lembra aquela musiquinha do QI de Abelha; diante de um amor, é capaz de gritar, de ofender e machucar, mas não de esquecer, é capaz de ser ridícula até não agüentar, bater com a cabeça na parede, fingir que não é inteligente, pensar em vingança e traição, com o objetivo nobre e corajoso de agradar o coração de um sujeito X, mesmo que ele não mereça (e ele quase sempre não merece).

 

E quem às vezes não é?

 

Vitória, 24 de maio de 2008

Ao som de The Gilbertos, Deite-se ao meu Lado



Escrito por ana às 20h23
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