guga
Fiquei comovida com a despedida do Gustavo Kuerten. Faz uns dias já, é
verdade, mas de vez em quando volto a pensar na imagem dele aos prantos, “quando
eu estou aqui vivendo esse momento lindo” de trilha sonora, a derrota para
aquele argentino, um honestíssimo “não é que eu não queira jogar mais; desculpa,
mas não consigo mais”, o derradeiro discurso em cadeia nacional.
Deu dó.
Guga tem 31 anos e uma lesão crônica no quadril. Diz que viveu intensamente o
tempo em que jogou, agradeceu família, namorada e técnico e saiu de cena,
milionário, realizado e aposentado numa idade em que Deus, o mundo e a torcida
do Flamengo, quase sempre, experimentam os primeiros resultados do trabalho
duro, formam família, amam, desamam, colecionam as primeiras desilusões cruéis
de verdade, aprendem o peso do fim do mês, a delicadeza dos acasos, a
esquisitice dos outros e o poder indiscutível do tempo.
Aos 31, o deslubramento felizmente já caiu de moda e, apesar das TPMs (dos
homens, inclusive) e neuroses, cada vez importa menos o que os outros dizem das
roupas, dos cabelos, dos brincos e dos hábitos. O espelho no geral exibe mais
leveza que antes, apesar das tristezas a mais, do cansaço estampado na cara de
um dia inteiro de trabalho e contas vencidas, pneu furado ou amor falido.
Os pés ficam no chão com mais freqüência e o romantismo ocupa um pouco menos
de espaço, embora elogios escancarados ainda ruborizem um bocado (timidez, pra
quem tem, não tem remédio, nunca), embora – sempre o amor – a barriga trema, a
saudade aperte, aquele abraço faça uma falta danada no domingo à tarde.
Aos 31, o corpo sabe o que diz com suas dores, seus sorrisos e seus arrepios,
as mãos sabem a força do toque, os olhos sabem a verdade das coisas, o coração
sabe que existem outros amores além do grande amor. Inteligências e belezas
importam sim (aos 31, antes e depois), mas de outra maneira. As escolhas, as
pequenas felicidades, o passar dos anos, amigos, filmes e canções importam mais,
tornam, conforme me disseram outra noite, a própria inteligência e a própria
beleza mais intensas.
Aos 31, padrão de fotonovela vira piada, as perdas do passado viram piada,
até as rugas viram piada. Afinal, você sabe quantos sorrisos, quantos
analgésicos, quantas rinites e quantas noites diante do computador fizeram
nascer aquele sulco no meio da testa, aquele talho no meio do nariz, aquela
prega em torno da boca, e sulco, talho, prega, rinite, analgésico, sorriso,
noite, testa, nariz e boca, cedo ou tarde, se transformam em buracos carregados
de história.
Gustavo Kuerten carrega os seus, possivelmente, e vai saber o que fará com
eles a partir de agora (que será?), quais sonhos alimenta, quais escolhas
pretende, que futuro planeja, tão absurdamente cedo para deixar para trás um
troço que, segundo ele, simboliza sua vida inteira.
Escrito por ana às 19h57
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