todo sentimento


tatuagens

Me dizem que é preciso coragem para ter uma tatuagem; imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteira que num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber.

Respondo que sim, verdade, precisa coragem (e um pouco de resistência à dor), porque quanto mais definitivas são as escolhas maior seu peso, seu medo, seus ais, ainda mais nestes tempos de aversão ao risco e apego à segurança, de conceitos antigos, nós difíceis de desatar, lembranças que não desmancham, manias velhas, mundo torto.

Mas – emendo – todas as escolhas são de alguma maneira definitivas, deixam marcas, mesmo as menores: desligar a TV a cabo porque já não há mais quintas de "Men in Trees" nem domingos de "Mesa Redonda", ouvir "Carolina na Janela" no rádio do carro para chegar feliz no trabalho, comer saudável ou caprichar na batata frita, fazer promessa pra Santo Expedito ou esquecer aquela causa urgente (e um pouco ridícula), escolher o roquezinho do Vitor Paiva para embalar um sábado um tanto estranho, telefonar para dizer disso, ou o silêncio.

"saudade, me largue agora
me deixa ir embora daqui
eu sei, você me adora
mas larga a minha mão
que eu vou
e não vou mais voltar"

Escolhas, como o tempo e quase todas as canções, não são nem boas nem malvadas; existem, apenas, e perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo, do amor, de tanta coisa que nem cabe.

Escolhas nos fazem esquecer rostos, levantar copos, estragar corpos, largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, apagar nomes, deixar os filmes passarem, as músicas tocarem, os retratos sumirem, o relógio engolir as tarefas enquanto uma história de personagens contraditórios toma todo o pensamento, e o final feliz parece cada vez mais distante.

Escolhas são inevitáveis, às vezes injustas e inconseqüentes, às vezes pensadas, às vezes acertadas, às vezes nem uma coisa nem as outras. À sua maneira, são definitivas, como (guardadas as devidas e as indevidas proporções) uma flor tatuada na canela, uma estrela grudada no pescoço, um dragão marcado no meio das costas.

 

Porque – alguém já disse (um filósofo, acho) – ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.



Escrito por ana às 16h30
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mr. jones

 

 

Harrison Ford e Shia LaBeouf em

"Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal"

 

Dei quatro estrelas pro novo Indiana Jones, apesar dos protestos de um colega do jornal, pra quem “um filme de Steven Spielberg não merece quatro estrelas”. Como assim, Bial? Verdade que ele escorrega às vezes, mas um sujeito que fez “ET”, “Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “A Cor Púrpura”, “Império do Sol” e os três Indiana Jones anteriores merece algum tipo de crédito. Ou não?

 

O risco de dar errado era perto de zero. “O Reino da Caveira de Cristal”, quarto filme da série estrelada por Harrison Ford (inteiraço, aos 65), retoma a bem-sucedida parceria de Spielberg com o aqui roteirista e produtor George Lucas (“Guerra nas Estrelas” e o mesmo espírito), repetindo a fórmula da história original, o bom humor, as piadas internas e a trilha sonora matadora de John Williams. Até Marion Ravenwood (Karen Ellen), a namoradinha impetuosa da primeira fita, está de volta.

 

Em “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) o herói enfrentava Adolf Hitler em busca da Arca da Aliança. Em “O Templo da Perdição” (1984) precisava recuperar pedras mágicas roubadas por um feiticeiro do mal. Em “A Última Cruzada” (1989) procurava o Santo Graal, igualmente disputado pelos nazistas. Desta vez, o professor de arqueologia Henry Jones Jr. se vê obrigado pelos russos a encontrar um artefato que pode ser a chave para o contato com extraterrestres ultrapoderosos.

 

O objeto, fonte de conhecimento ilimitado, é desesperadamente desejado pela maligna agente Irina Spalko (Cate Blanchett). Estamos em 1957, no auge da Guerra Fria, e Indiana Jones (o nome do personagem é uma homenagem ao cachorro de George Lucas) tem não apenas os comunistas, mas os próprios norte-americanos do FBI em seu encalço, além de vampiros de almas, formigas devoradoras, macacos fanfarrões e toda sorte de espécies bizarras que habitam a selva amazônica.

 

Indy, alguém já disse, continua a criança que sempre morou no arqueólogo. Destemido, desprendido e debochado, ele se alia ao motoqueiro meio James Dean Mutt Williams (Shia LaBeouf), igualmente destemido, desprendido e debochado, na luta contra os vilões vermelhos; apanha (e bate) bastante e lá pelas tantas – tema querido ao cinema de Spielberg – redescobre a importância do amor e das relações familiares.

 

Alguém adivinha como acaba?

 

ao som de Fiona Apple, "When the Pawn Hits the Conflicts..."



Escrito por ana às 18h48
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