todo sentimento


my blueberry nights

a partir de amanhã, num cinema perto de você

(ainda não sei porque esse filme me tocou tanto... ou será que sei?)

 

 

Andaram  dizendo que “Um Beijo Roubado” é fraco decepcionante, medíocre, que era de se esperar bem mais de um filme de Wong Kar-Wai, o gênio do cérebro alaranjado por trás de “2046” e “Amor à Flor da Pele”.

 

Verdade que “My Bluberry Nights” é convencional até o talo. Verdade que, como atriz, a cantora Norah Jones convence pouco. Verdade que se havia de querer, na seqüência das duas obras-primas de antes, alguma coisa de tirar o fôlego. Mas “Um Beijo Roubado" encanta por outros motivos. Ao contrário das ilusões perdidas dos anteriores, desta vez, Kar-Wai parece interessado em dizer que há esperança (coisa boa de se ouvir), apesar de todo o desencontro, de todo o frio, de todo equívoco, de toda covardia, de toda dor.

 

Seus personagens centrais são uma mulher sem rumo às voltas com o fim de um ciclo e um homem que resume nas chaves que guarda a espera que alimenta no decorrer do tempo. Ela (Norah Jones) larga tudo (no caso, quase nada) e embarca numa viagem pela América com o objetivo declarado de esquecer um relacionamento que deu errado. Ele (Jude Law) fica, com as chaves, as esperas e as rejeitadas tortas de blueberry (melhor não contar mais) que vende em seu café.

 

Um policial alcoólatra igualmente desiludido (David Strathairn), sua ex-mulher (Rachel Weisz) e uma jogadora compulsiva de pôquer (Natalie Portman, razoavelmente embarangada) completam a trupe de tipos criados por Wong Kar-Wai, cineasta nascido em Hong Kong e celebrado no Ocidente principalmente pelo olhar quase obsessivo com que trata os amores e as longas distâncias percorridas, em nome deste mesmo amor, na busca de sentido, verdade e reciprocidade.

 

O amor é bonito, Kar-Wai nos diz, mas guarda angústias e desencontros, perdas e um bocado de melancolia; melancolia, aliás, aqui traduzida em canções. Porque amor que sirva tem trilha sonora, e “Um Beijo Roubado” capricha na sua: uma versão cortante de “Try a Little Tenderness”, Neil Young, a própria Norah Jones, Cat Power (que faz uma ponta na fita, como a ex de Jude Law), Gustavo Santaolalla e todos os dedos do guitarrista road movie Ry Cooder (parceiro habitual do cineasta alemão Wim Wenders). Cooder preenche os silêncios do amor – ou, em outra leitura possível, o vazio da própria vida – com folk, jazz e blues, a um modo ao mesmo tempo despretensioso, delicado e inesperado. Exatamente como costumam ser os melhores amores. Exatamente como é “My Blueberry Nights”.

 

a propósito:

http://www.youtube.com/watch?v=3UlQVhMAbwg



Escrito por ana às 12h55
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enquanto o filme não chega...

Achei por acaso um texto que escrevi quase seis anos atrás (que veeeelha) sobre "Sexo e a Cidade", a série. Resolvi postar aqui, em homenagem ao filme que, dizem, estréia no próximo dia 6.

Série exalta o poder das saias
Vitória, 23 de agosto de 2002

Para a alegria geral da nação feminina, “Sexo e a Cidade” está de volta, desde o primeiro episódio da temporada inicial. Retirada sem grandes explicações da programação da HBO brasileira, no ano passado, a série cômica mais premiada da televisão americana atual integra, desde a última segunda-feira, a grade do Multishow.

Embora os episódios das quatro temporadas compradas pelo Multishow não sejam inéditos, o retorno de “Sexo e a Cidade” vale a festa. Afiadas como sempre, as personagens de Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon (re)vivem suas aventuras e desventuras amorosas pelos lugares mais badalados de Nova York e provam – se é que eles ainda precisavam de provas – a força que a mulherada tem.

As garotas de “Sexo e a Cidade” transformam os parceiros ocasionais em verdadeiros homens-objeto que passeiam, velozes, entre características nada sutis, dos bem-dotados aos apenas beijáveis, dos bem-sucedidos aos de bolsos vazios, passando, claro, pelo sujeito perfeito, que, mais claro ainda, não quer compromisso sério.

Ao expor, sem culpa, os traumas a que historicamente boa parte das mulheres do mundo foram submetidas, a trupe modernosa de “Sexo e a Cidade” escancara a postura contemporânea de garotas financeiramente independentes, mas solitárias, até um pouco cínicas, mas carentes até o último fio dos cabelos levemente tingidos.

Em suas mãos, os antes donos do mundo tornam-se brinquedinhos caros que, sim, quebram, mas também podem ser substituídos. Enquanto Lucille Ball, a pioneira das personagens femininas em séries de televisão, lutava para pagar as contas e manter o amor, as heroínas da vez vivem no limiar entre o sucesso profissional num mercado competitivo e machista e o êxito, este cercado de ressalvas, de seus relacionamentos afetivos.

Mas às intrépidas personagens basta apenas um encontro com as amigas e meia dúzia de drinques coloridos para que toda a mágoa se apague e os fracassos amorosos sejam enterrados, para sempre (ou até o próximo capítulo).

“Sexo e a Cidade” deixa a angústia existencial para depois, embora não perca de vista a ruína dos amores não correspondidos, especialmente o de Carrie Bradshaw por um milionário bonitão apelidado de “Mr. Big” (Chris Noth), com – adivinhem – dificuldades de manter um relacionamento razoavelmente estável.

Criada em 1998 a partir da seleção de crônicas que a jornalista britânica Candace Bushnell publicava no diário “The New York Observer”, a série serve, cada vez mais, como um alento. Com humor e ironia, o roteirista Michael Patrick King e suas estrelas provam que, para algumas superficialidades, não existem justificativas nem maiores explicações. Fútil? Pode até ser... Mas quem não é, pelo menos de vez em quando?



Escrito por ana às 19h32
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