todo sentimento


Obrigada aos que apareceram na terça no Don Camaleone.

Espero que todos tenham se divertido como eu.

 



Escrito por ana às 01h20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




namorada futebol clube

Uma das ilustrações da Mariana Mauro que mais gosto é esta, feita há uns bons anos para a crônica Namorada Futebol Clube. Texto e desenho estão no capítulo As Escolhas. O livro tem cinco capítulos - As Escolhas, Os Amores, As Palavras, O Tempo e A Imaginação -, com seis textos cada.

Lançamento dia 30, no Don Camaleone.

 

 

 

(...)

Vestido florido de gola em V, era isso, e tudo resolvido. Dizia o adeus dos justos, virava outra e partia para outro, que detestava futebol tanto quanto as baboseiras do cinema de arte, que sonhava em ser DJ nas areias de Ibiza, que ouvia música eletrônica, Radiohead e, às vezes, vozes. Adeus Mozart, adeus Beatles, adeus Stones, adeus Armando Nogueira, au revoir Merlot, bonjour LSD.  Era assim, desde sempre, a minha amiga.



Escrito por ana às 23h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




prefácio

"Os textos são formas vivas que murcham e se entristecem, se não encontram os leitores apropriados. Por essa razão, o escritor tem a responsabilidade de cuidar para que seus textos sempre se exponham de modo que alguém, que se identifique com eles, possa vê-los, acariciá-los, mimá-los, enfim, participar de suas existências como se deve fazer com os gatos, os bebês e as flores.

E, às vezes, é assim: o escritor, zeloso pela vida de suas pequeninas criaturas, põe os textos em exibição nos mais diversos lugares. Mas, sempre suspeita de que, estando esparsos, eles não são vistos de modo suficiente para que possam reviver e brilhar. Nunca tem a certeza. Esse é o dilema.

E que faz, então, o escritor? Colhe, aqui e ali, alguns de seus textos. Escolhe os que mais o enternecem, os que mais o enchem de felicidade, os que mais o entristecem ou os que mais se parecem com aquilo que ele julga que são pedaços de alma. Ele os junta debaixo de um título comum como se juntam, em uma caixa, certos caramelos que quando postos na boca, maravilhosamente, se transformam em pedras preciosas verdes, azuis e vermelhas".

(...) 

Trecho do lindo prefácio escrito pela Bernadette Lyra para o livro Todo Sentimento.

Que honra.



Escrito por ana às 05h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




de volta

Tudo começou aqui mesmo, neste www.todosentimento.zip.net, em 2004. Atualizei, apaguei, abandonei, voltei, larguei de novo, estas coisas. E ele então virou um livro, que vou lançar no próximo dia 30, na forneria Don Camaleone, em Vitória. Ficção misturada com realidade, vida, novela, canções, sentido, ilustrações lindas da Mariana Mauro, saudade, alegria, o filme que acabei de ver, a edição de bolso de "Alice no País das Maravilhas", o estrago do mundo, a insônia, o desgosto com as letras maiúsculas, tudo registrado, enfeitado, inventado ou reproduzido com maior, menor ou nenhuma fidelidade aos fatos, "life is very short, there's no time for fussing and fighting, my friend".

O livro, esquema Radiohead, vai custar quanto cada um puder ou quiser pagar por ele.

Apareçam.



Escrito por ana às 23h39
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




sonhos

Então fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Pensei, por um momento, que estávamos gastando à toa uma rara manhã sem cartão de ponto, e que havia faxina pra fazer, supermercado pra comprar, bronze pra pegar, sono pra pôr em dia, armário pra colocar ordem, papéis pra jogar no lixo, poeira pra tirar e uma penca de outras obrigações supostamente mais urgentes do que ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar.

A casa fica na Cidade Alta e custa pouco para o seu tamanho. Uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas idéias talvez bastassem para transformá-la num centro cultural com livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar macarrão, parede pra pendurar quadros, e num passe de mágica “O Livro do Riso e do Esquecimento”, a banda dos novos amigos, a receita daquela tarde e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

(óleo sobre tela de Daniel Senise, 1985)

Àquela altura, parecia perda de tempo sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos dentro do prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo. Acontece que não era. Casa, quadro, macarrão, estante, microfone, prato, parede, “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Daniel Senise, banda, biblioteca, varanda, cozinha, sala, mágica, receita, samba e rock eram qualquer coisa, menos perda de tempo. Eram sonho.

Sonho, que o dicionário em determinado momento define como seqüência de idéias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega, é aquela casa ajeitada com a gente dentro, é um sofá novo pra rever os DVDs do Chaplin durante os dias de vento sul, é a Amy Winehouse cantando sóbria no Brasil, é a certeza de um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, é a esperança de que hoje à tarde as coisas vão voltar a ser como antes, é a trégua das insônias que pesquisadores da Universidade Duke disseram nesta semana que aumentam risco de doenças cardiovasculares nas mulheres. (Que medo).

Sonho é a volta de um antigo amor ou a chegada de um novo, é justiça, liberdade e política decente, é ar puro e nunca mais sofrer de rinite, é música o tempo todo, bolinho de doce de leite com Coca Cola, amigos de verdade, uma casa numa ilha sobre o mar, o sol, o desapego e a digestão das coisas que fazem o estômago doer, é um anjo da guarda por perto, um carro limpo, revisado e sem bancos que decepem os dedos, é acordar sem despertador depois de quantas horas forem necessárias; é tanta coisa que coloca faxina, fogão, supermercado, conta, lixo e o mundo inteiro no chinelo.

Sonho talvez seja ser um pouco criança às vezes, porque os anos, as planilhas e as tarefas nos obrigam a parar de imaginar, e é preciso cuidar disso, manter um troço de nome estranho que descobri estes dias numa revista: neotenia, capacidade de um animal de manter, na idade adulta, características típicas de sua forma jovem, sejam elas as brânquias externas das salamandras ou a vontade de aprender, a mania de rir e o hábito de se encantar até diante das coisas mais simples dos (alguns) seres humanos.

E então – Eduardo Galeano tem toda a razão – não haveria noite que não fosse vivida como se fosse a última, nem dia que não fosse vivido como se fosse o primeiro.

São Paulo, 19 de junho de 2008

Ao som de Marina de La Riva, Sonho Meu

http://br.youtube.com/watch?v=mx7K1WgCkJQ



Escrito por ana às 23h25
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




amy, b side

Eu tinha feito uma primeira versão do texto sobre a Amy Winehouse que publiquei outro dia na coluna Feminices, da Paradoxo (http://www.revistaparadoxo.com/materia.php?ido=5526). Resolvi postar aqui, pra acompanhar a linda (pra variar) ilustração que a Mariana me mandou e infelizmente não deu tempo de colocar lá.

ilustração: mariana mauro www.flickr.com/photos/marianamauro

Meu ex-vizinho costuma dizer que a Amy Winehouse é a mulher ideal: canta bem, tem estilo e bebe junto. Verdade que o beber junto dela ultrapassa (e muito) os limites estabelecidos pelo bom senso e pela Organização Mundial das Mentes Sãs em Corpos Sãos, e que o resto da vida acompanha o (des)ritmo, mas a dona encrenca é de fato adorável, né não?

 

Cool até o caroço, ela exibe o modelão anos 60 com flor no cabelo e tudo, ri da própria estupidez, confessa os próprios vícios, chora os amores frustrados acabada no chão da cozinha, celebra a boemia que, de um jeito torto, dá algum sentido a sua vida e foda-se o resto.

 

A Amy – o Zé tem razão – é demais. Matou de cara a charada de que o amor é um jogo perdido, aprendeu na marra que às vezes precisa morrer uma centena de vezes, entendeu que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto é difícil colocar as coisas em ordem com a sua (dele) voz na minha (dela) cabeça. “What kind of fuckery is this?”.

 

Ela sofre, coitada.

 

“Depois do último, acho que é impossível um homem me magoar. Não dói a sério, é só incrivelmente irritante”.

 

Boto fé.

 

Porque o fim de determinados amores de fato irrita mais que dói, e nessas horas, minha amiga, fica difícil saber o que fazer com o Diário do Futuro Compartilhado, porque não há mais futuro, muito menos partilha; com o retrato do sorriso azul, porque não há mais retrato, muito menos azul; com a saudade absurda que franceses, chineses, paquistaneses e dinamarqueses nem têm no dicionário e a gente sente que é uma beleza.

 

Diva inesperada, a Amy usa suas canções como terapia escancarada: confusa e estranha (engraçado, não?), coração roubado, apenas bons amigos, deprimida como uma enxaqueca (hein?). A comparação é bizarra, mas confesso que não me sai da cabeça: ela me lembra aquela musiquinha do QI de Abelha; diante de um amor, é capaz de gritar, de ofender e machucar, mas não de esquecer, é capaz de ser ridícula até não agüentar, bater com a cabeça na parede, fingir que não é inteligente, pensar em vingança e traição, com o objetivo nobre e corajoso de agradar o coração de um sujeito X, mesmo que ele não mereça (e ele quase sempre não merece).

 

E quem às vezes não é?

 

Vitória, 24 de maio de 2008

Ao som de The Gilbertos, Deite-se ao meu Lado



Escrito por ana às 20h23
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




guga

 

Fiquei comovida com a despedida do Gustavo Kuerten. Faz uns dias já, é verdade, mas de vez em quando volto a pensar na imagem dele aos prantos, “quando eu estou aqui vivendo esse momento lindo” de trilha sonora, a derrota para aquele argentino, um honestíssimo “não é que eu não queira jogar mais; desculpa, mas não consigo mais”, o derradeiro discurso em cadeia nacional.

Deu dó.

Guga tem 31 anos e uma lesão crônica no quadril. Diz que viveu intensamente o tempo em que jogou, agradeceu família, namorada e técnico e saiu de cena, milionário, realizado e aposentado numa idade em que Deus, o mundo e a torcida do Flamengo, quase sempre, experimentam os primeiros resultados do trabalho duro, formam família, amam, desamam, colecionam as primeiras desilusões cruéis de verdade, aprendem o peso do fim do mês, a delicadeza dos acasos, a esquisitice dos outros e o poder indiscutível do tempo.

Aos 31, o deslubramento felizmente já caiu de moda e, apesar das TPMs (dos homens, inclusive) e neuroses, cada vez importa menos o que os outros dizem das roupas, dos cabelos, dos brincos e dos hábitos. O espelho no geral exibe mais leveza que antes, apesar das tristezas a mais, do cansaço estampado na cara de um dia inteiro de trabalho e contas vencidas, pneu furado ou amor falido.

Os pés ficam no chão com mais freqüência e o romantismo ocupa um pouco menos de espaço, embora elogios escancarados ainda ruborizem um bocado (timidez, pra quem tem, não tem remédio, nunca), embora – sempre o amor – a barriga trema, a saudade aperte, aquele abraço faça uma falta danada no domingo à tarde.

Aos 31, o corpo sabe o que diz com suas dores, seus sorrisos e seus arrepios, as mãos sabem a força do toque, os olhos sabem a verdade das coisas, o coração sabe que existem outros amores além do grande amor. Inteligências e belezas importam sim (aos 31, antes e depois), mas de outra maneira. As escolhas, as pequenas felicidades, o passar dos anos, amigos, filmes e canções importam mais, tornam, conforme me disseram outra noite, a própria inteligência e a própria beleza mais intensas.

Aos 31, padrão de fotonovela vira piada, as perdas do passado viram piada, até as rugas viram piada. Afinal, você sabe quantos sorrisos, quantos analgésicos, quantas rinites e quantas noites diante do computador fizeram nascer aquele sulco no meio da testa, aquele talho no meio do nariz, aquela prega em torno da boca, e sulco, talho, prega, rinite, analgésico, sorriso, noite, testa, nariz e boca, cedo ou tarde, se transformam em buracos carregados de história.

Gustavo Kuerten carrega os seus, possivelmente, e vai saber o que fará com eles a partir de agora (que será?), quais sonhos alimenta, quais escolhas pretende, que futuro planeja, tão absurdamente cedo para deixar para trás um troço que, segundo ele, simboliza sua vida inteira.



Escrito por ana às 19h57
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




um laerte

 

 

"Odeio seu jeito de falar

E seu cabelo sem corte
Odeio como dirige meu carro
Odeio quando fica a me olhar
 
Odeio suas botas de combate
E como lê minha mente
Te odeio tanto que isso me abate
E até me faz rimar
 
Odeio por sempre ter razão
Odeio quando mente
Odeio quando me faz rir
E mais ainda quando me faz chorar
 
Odeio quando não está perto
E quando não me liga
Mas, mais que tudo, odeio o modo como não te odeio
Nem um pouco, nem por um segundo, nem nada"


Escrito por ana às 16h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




dois laertes

 

 

"Por mais que se mova o trem, tu não te moves de ti"



Escrito por ana às 16h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




três laertes

"Quando você pára de brincar e mexer
O seu coração ao invés de bater padece"


Escrito por ana às 16h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




tatuagens

Me dizem que é preciso coragem para ter uma tatuagem; imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteira que num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber.

Respondo que sim, verdade, precisa coragem (e um pouco de resistência à dor), porque quanto mais definitivas são as escolhas maior seu peso, seu medo, seus ais, ainda mais nestes tempos de aversão ao risco e apego à segurança, de conceitos antigos, nós difíceis de desatar, lembranças que não desmancham, manias velhas, mundo torto.

Mas – emendo – todas as escolhas são de alguma maneira definitivas, deixam marcas, mesmo as menores: desligar a TV a cabo porque já não há mais quintas de "Men in Trees" nem domingos de "Mesa Redonda", ouvir "Carolina na Janela" no rádio do carro para chegar feliz no trabalho, comer saudável ou caprichar na batata frita, fazer promessa pra Santo Expedito ou esquecer aquela causa urgente (e um pouco ridícula), escolher o roquezinho do Vitor Paiva para embalar um sábado um tanto estranho, telefonar para dizer disso, ou o silêncio.

"saudade, me largue agora
me deixa ir embora daqui
eu sei, você me adora
mas larga a minha mão
que eu vou
e não vou mais voltar"

Escolhas, como o tempo e quase todas as canções, não são nem boas nem malvadas; existem, apenas, e perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo, do amor, de tanta coisa que nem cabe.

Escolhas nos fazem esquecer rostos, levantar copos, estragar corpos, largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, apagar nomes, deixar os filmes passarem, as músicas tocarem, os retratos sumirem, o relógio engolir as tarefas enquanto uma história de personagens contraditórios toma todo o pensamento, e o final feliz parece cada vez mais distante.

Escolhas são inevitáveis, às vezes injustas e inconseqüentes, às vezes pensadas, às vezes acertadas, às vezes nem uma coisa nem as outras. À sua maneira, são definitivas, como (guardadas as devidas e as indevidas proporções) uma flor tatuada na canela, uma estrela grudada no pescoço, um dragão marcado no meio das costas.

 

Porque – alguém já disse (um filósofo, acho) – ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.



Escrito por ana às 16h30
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




mr. jones

 

 

Harrison Ford e Shia LaBeouf em

"Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal"

 

Dei quatro estrelas pro novo Indiana Jones, apesar dos protestos de um colega do jornal, pra quem “um filme de Steven Spielberg não merece quatro estrelas”. Como assim, Bial? Verdade que ele escorrega às vezes, mas um sujeito que fez “ET”, “Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “A Cor Púrpura”, “Império do Sol” e os três Indiana Jones anteriores merece algum tipo de crédito. Ou não?

 

O risco de dar errado era perto de zero. “O Reino da Caveira de Cristal”, quarto filme da série estrelada por Harrison Ford (inteiraço, aos 65), retoma a bem-sucedida parceria de Spielberg com o aqui roteirista e produtor George Lucas (“Guerra nas Estrelas” e o mesmo espírito), repetindo a fórmula da história original, o bom humor, as piadas internas e a trilha sonora matadora de John Williams. Até Marion Ravenwood (Karen Ellen), a namoradinha impetuosa da primeira fita, está de volta.

 

Em “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) o herói enfrentava Adolf Hitler em busca da Arca da Aliança. Em “O Templo da Perdição” (1984) precisava recuperar pedras mágicas roubadas por um feiticeiro do mal. Em “A Última Cruzada” (1989) procurava o Santo Graal, igualmente disputado pelos nazistas. Desta vez, o professor de arqueologia Henry Jones Jr. se vê obrigado pelos russos a encontrar um artefato que pode ser a chave para o contato com extraterrestres ultrapoderosos.

 

O objeto, fonte de conhecimento ilimitado, é desesperadamente desejado pela maligna agente Irina Spalko (Cate Blanchett). Estamos em 1957, no auge da Guerra Fria, e Indiana Jones (o nome do personagem é uma homenagem ao cachorro de George Lucas) tem não apenas os comunistas, mas os próprios norte-americanos do FBI em seu encalço, além de vampiros de almas, formigas devoradoras, macacos fanfarrões e toda sorte de espécies bizarras que habitam a selva amazônica.

 

Indy, alguém já disse, continua a criança que sempre morou no arqueólogo. Destemido, desprendido e debochado, ele se alia ao motoqueiro meio James Dean Mutt Williams (Shia LaBeouf), igualmente destemido, desprendido e debochado, na luta contra os vilões vermelhos; apanha (e bate) bastante e lá pelas tantas – tema querido ao cinema de Spielberg – redescobre a importância do amor e das relações familiares.

 

Alguém adivinha como acaba?

 

ao som de Fiona Apple, "When the Pawn Hits the Conflicts..."



Escrito por ana às 18h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




chegadas e partidas

As pessoas entram e saem da vida alheia sem qualquer coisa que sirva para tornar a entrada menos assustadora e a saída menos dolorosa. Às vezes chegam tão de repente que não dá tempo de pintar as unhas nem os olhos, nem de pôr o vestido ideal ou de dizer a coisa certa. Às vezes vão sem dizer adeus, ou porque não sabem fazer de outra forma ou porque o tempo é curto para as despedidas ou porque, vai saber, tem mesmo de ser assim.

Se é verdade que o mundo anda em círculos, os encontros e os desencontros são peças de uma engrenagem que o dono do universo manipula de acordo com o próprio humor e que nós, Seus filhos (é?), recebemos com frio na barriga (caso das chegadas) e vazio no peito (caso das partidas).

Faz parte, e um pouco de açúcar, um pouco de álcool, um pouco de colo e um pouco de música ajudam a administrar a presença da amiga da infância que propõe um reencontro milhões de (quase 10) anos depois, a ausência do sujeito que precisa achar a si mesmo do outro lado do mapa, a presença do sorriso irrecusável que aparece sem pedir licença, a ausência dos que a gente sente saudade e não sabe o que dizer, a presença repentina daquele feriado santo em que cantávamos os sertanejos por Camburi, a ausência igualmente repentina, triste e sem certeza, de umas semanas depois.

Assim e pronto, e nem mil ensaios, mil exemplos, mil conversas, mil teorias são suficientes para disfarçar a vertigem do “seja bem-vindo à minha vida” ou para ficar de pé quando chega o momento do “não quero mais a sua insensatez”, hasta la vista, tira o porta-retrato dali, toma a chave, apaga o texto, muda o contexto, porque acabou. Assim, e pronto.

"esta vida é uma estranha hospedaria

de onde se parte quase sempre às tontas

e nossas malas nunca estão prontas

e as nossas contas nunca estão em dia"

Mario Quintana



Escrito por ana às 18h03
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




my blueberry nights

a partir de amanhã, num cinema perto de você

(ainda não sei porque esse filme me tocou tanto... ou será que sei?)

 

 

Andaram  dizendo que “Um Beijo Roubado” é fraco decepcionante, medíocre, que era de se esperar bem mais de um filme de Wong Kar-Wai, o gênio do cérebro alaranjado por trás de “2046” e “Amor à Flor da Pele”.

 

Verdade que “My Bluberry Nights” é convencional até o talo. Verdade que, como atriz, a cantora Norah Jones convence pouco. Verdade que se havia de querer, na seqüência das duas obras-primas de antes, alguma coisa de tirar o fôlego. Mas “Um Beijo Roubado" encanta por outros motivos. Ao contrário das ilusões perdidas dos anteriores, desta vez, Kar-Wai parece interessado em dizer que há esperança (coisa boa de se ouvir), apesar de todo o desencontro, de todo o frio, de todo equívoco, de toda covardia, de toda dor.

 

Seus personagens centrais são uma mulher sem rumo às voltas com o fim de um ciclo e um homem que resume nas chaves que guarda a espera que alimenta no decorrer do tempo. Ela (Norah Jones) larga tudo (no caso, quase nada) e embarca numa viagem pela América com o objetivo declarado de esquecer um relacionamento que deu errado. Ele (Jude Law) fica, com as chaves, as esperas e as rejeitadas tortas de blueberry (melhor não contar mais) que vende em seu café.

 

Um policial alcoólatra igualmente desiludido (David Strathairn), sua ex-mulher (Rachel Weisz) e uma jogadora compulsiva de pôquer (Natalie Portman, razoavelmente embarangada) completam a trupe de tipos criados por Wong Kar-Wai, cineasta nascido em Hong Kong e celebrado no Ocidente principalmente pelo olhar quase obsessivo com que trata os amores e as longas distâncias percorridas, em nome deste mesmo amor, na busca de sentido, verdade e reciprocidade.

 

O amor é bonito, Kar-Wai nos diz, mas guarda angústias e desencontros, perdas e um bocado de melancolia; melancolia, aliás, aqui traduzida em canções. Porque amor que sirva tem trilha sonora, e “Um Beijo Roubado” capricha na sua: uma versão cortante de “Try a Little Tenderness”, Neil Young, a própria Norah Jones, Cat Power (que faz uma ponta na fita, como a ex de Jude Law), Gustavo Santaolalla e todos os dedos do guitarrista road movie Ry Cooder (parceiro habitual do cineasta alemão Wim Wenders). Cooder preenche os silêncios do amor – ou, em outra leitura possível, o vazio da própria vida – com folk, jazz e blues, a um modo ao mesmo tempo despretensioso, delicado e inesperado. Exatamente como costumam ser os melhores amores. Exatamente como é “My Blueberry Nights”.

 

a propósito:

http://www.youtube.com/watch?v=3UlQVhMAbwg



Escrito por ana às 12h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




enquanto o filme não chega...

Achei por acaso um texto que escrevi quase seis anos atrás (que veeeelha) sobre "Sexo e a Cidade", a série. Resolvi postar aqui, em homenagem ao filme que, dizem, estréia no próximo dia 6.

Série exalta o poder das saias
Vitória, 23 de agosto de 2002

Para a alegria geral da nação feminina, “Sexo e a Cidade” está de volta, desde o primeiro episódio da temporada inicial. Retirada sem grandes explicações da programação da HBO brasileira, no ano passado, a série cômica mais premiada da televisão americana atual integra, desde a última segunda-feira, a grade do Multishow.

Embora os episódios das quatro temporadas compradas pelo Multishow não sejam inéditos, o retorno de “Sexo e a Cidade” vale a festa. Afiadas como sempre, as personagens de Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon (re)vivem suas aventuras e desventuras amorosas pelos lugares mais badalados de Nova York e provam – se é que eles ainda precisavam de provas – a força que a mulherada tem.

As garotas de “Sexo e a Cidade” transformam os parceiros ocasionais em verdadeiros homens-objeto que passeiam, velozes, entre características nada sutis, dos bem-dotados aos apenas beijáveis, dos bem-sucedidos aos de bolsos vazios, passando, claro, pelo sujeito perfeito, que, mais claro ainda, não quer compromisso sério.

Ao expor, sem culpa, os traumas a que historicamente boa parte das mulheres do mundo foram submetidas, a trupe modernosa de “Sexo e a Cidade” escancara a postura contemporânea de garotas financeiramente independentes, mas solitárias, até um pouco cínicas, mas carentes até o último fio dos cabelos levemente tingidos.

Em suas mãos, os antes donos do mundo tornam-se brinquedinhos caros que, sim, quebram, mas também podem ser substituídos. Enquanto Lucille Ball, a pioneira das personagens femininas em séries de televisão, lutava para pagar as contas e manter o amor, as heroínas da vez vivem no limiar entre o sucesso profissional num mercado competitivo e machista e o êxito, este cercado de ressalvas, de seus relacionamentos afetivos.

Mas às intrépidas personagens basta apenas um encontro com as amigas e meia dúzia de drinques coloridos para que toda a mágoa se apague e os fracassos amorosos sejam enterrados, para sempre (ou até o próximo capítulo).

“Sexo e a Cidade” deixa a angústia existencial para depois, embora não perca de vista a ruína dos amores não correspondidos, especialmente o de Carrie Bradshaw por um milionário bonitão apelidado de “Mr. Big” (Chris Noth), com – adivinhem – dificuldades de manter um relacionamento razoavelmente estável.

Criada em 1998 a partir da seleção de crônicas que a jornalista britânica Candace Bushnell publicava no diário “The New York Observer”, a série serve, cada vez mais, como um alento. Com humor e ironia, o roteirista Michael Patrick King e suas estrelas provam que, para algumas superficialidades, não existem justificativas nem maiores explicações. Fútil? Pode até ser... Mas quem não é, pelo menos de vez em quando?



Escrito por ana às 19h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Image Hosted by ImageShack.us
Meu perfil
BRASIL, Mulher, Música, Livros, Filmes
Histórico
Votação
  Dê uma nota para meu blog