todo sentimento


Todo Sentimento por aí

O negócio é o seguinte: 30 exemplares do meu livro de crônicas Todo Sentimento estão sendo colocados por 30 pessoas em lugares públicos de 10 cidades do Brasil. Cada exemplar tem um pequeno cartão de instruções, que sugerem que quem encontrar o livro escolha um texto, faça as anotações que quiser e, novamente, deixe o volume em um local público. É pra espalhar tá? Aqui tem detalhes.



Escrito por ana laura nahas às 01h42
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Este blog tem, mas acabou

Anota aí o endereço novo: http://analauranahas.wordpress.com/



Escrito por ana laura nahas às 20h24
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Troque um livro seu pelo meu

A ideia não é minha. Copiei do Samir Mesquista (http://www.samirmesquita.com.br), um escritor de 27 anos que nasceu em Curitiba, vive em São Paulo e tem dois livros, ou projetos: Dois Palitos, seleção de microcontos vendida em caixas de fósforo, e 18:30, espécie de mapa animado em que cada carro engarrafado guarda uma pequena história.

Vai funcionar assim:

Primeiro você manda um livro legal (conto, crônica, romance, biografia, jornalismo, música ou cinema) em bom estado de conservação para a Caixa Postal 527, CEP 29060-973, Vitória (ES). Daí escreve um email para ana.laura.nahas@gmail.com com o endereço em que quer receber um exemplar do meu livro de crônicas Todo Sentimento, uma seleção de 30 textos sobre arte, política, fatos cotidianos e histórias sobre amores, amigos, memórias, encontros e desencontros, divididos em cinco capítulos: Os Amores, As Escolhas, As Palavras, O Tempo e A Imaginação.

 

Em um prazo de 10 dias, eu mando ele pra você pelo Correio, e tudo resolvido.

Ninguém paga nada pra ninguém, você ganha um livro novinho em folha e eu ganho outro em troca.

Negócio fechado?



Escrito por ana laura nahas às 00h15
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18 palavras e mais umas

Tem palavras que eu gosto de graça. Canção é uma delas. Ordinária é outra, comum, habitual, repete, repete, regular, constante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro terrível, ou então ridícula, que a minha afilhada menor pronuncia ri-dí-cu-na, com N, do jeito mais fofo do mundo e sem ter muita ideia do que significa. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que cabe em qualquer lugar e quase nunca decepciona. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável (e troço é também uma palavra incrível, não?).

Razão é uma palavra que eu gosto de graça, que nem canção, ordinária, planta, pepperoni, tatuagem, liberdade, chocolate, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Tempo é outra palavra ótima, enquanto teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda.

Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, a capacidade de andar junto apesar do descompasso, a percepção de que aceitar às vezes é preciso e funciona melhor que qualquer força. Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita, que quando vira real assusta ao mesmo tempo em que diverte, desordena ao mesmo tempo em que faz voltar a sorrir, escancara a necessidade de pintar a parede de cor de abóbora e encontrar um sentido diferente daquele.

Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Rei e o Erasmo emocionados no Maracanã, um ombro para ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, um par de pernas pra bater no shopping e uma dose extra de disposição para beber Absolut de baunilha. Amigo é pra tratar do existencialismo e das inexistências, cantar desafinado, falar a verdade enquanto come a pizza que ficou de ontem. É pra rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder o rumo e de noite rodar a praça cantando até as piores canções.

Amigo é pra cortar o cabelo em solidariedade, emprestar roupa e dinheiro sem juros, chorar junto e rir até a barriga doer, viajar pra Europa (ou pelo mundo, sem sair da varanda), enterrar os que nos deixam cedo e puxar a orelha quando precisa, ver "Por uma Vida menos Ordinária" de novo e suspirar pelo dentinhos amarelos do Ewan McGregor, telefonar de madrugada ou marcar um almoço na praia para celebrar o nada. É aquele poema todo do Vinicius.

"Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí
E se tornaram alicerces do meu encanto pela vida"


Encanto é uma palavra que eu gosto de graça, o sorriso da minha amiga diante das histórias que ouve, a capacidade que ela tem de dar um valor imenso às coisas que antes pareciam pequenas, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom, por pior que seja.

Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira e um monte de discos em volta, uma garrafa de vinho, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.



Escrito por ana às 00h12
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Estamos velhos, meus velhos

Hoje reencontrei três antigos colegas da faculdade que não via há algum (muito) tempo. Conclusão número um: de uma maneira ou de outra, reencontros são quase sempre muitíssimo proveitosos. Conclusão número dois: eu, eles e aqueles de quem lembramos seguimos rumos um bocado diversos, ouvimos canções diferentes, alimentamos esperas e esperanças distintas, assistimos a filmes e histórias que têm pouquíssimo em comum, escolhemos caminhos tão distantes quanto o reino da princesa Fiona, a praça central de Porto Alegre ou os jardins secretos do leste europeu.

Daí lembrei que o mundo tem mesmo uma lógica curiosa, porque você passa meses ou anos vendo alguém todos os dias, ou porque estuda junto ou porque trabalha junto ou porque vive junto ou porque ama tanto que não sabe viver sem ou porque não tem outra opção, e um dia não vê mais, não encontra mais, não ama mais, não vai à festa de despedida, ao casamento ou ao aniversário de 30 anos, sabe de quem casou ou teve filhos na fila do supermercado e pronto, acabou-se: vão-se todos para o baú das memórias intocadas, e outros chegam, encontram, amam, vivem, trabalham, decepcionam ou consertam.

Conclusão número três: estamos velhos, meus velhos, mas a vida é boa.



Escrito por ana às 00h28
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É mais fácil engolir o sol ou uma dúzia de limões?

Palmas pro Armando Antenore na coluna Máscara da Bravo! deste mês. Com a sensibilidade de sempre, ele entrevista o "sujeito" (assim mesmo, com aspas) que quis engolir o sol, engolir mesmo, sem mastigar, sentir o sol inteiro dentro da barriga, filho de mãe costureira e de pai construtor de imóveis, visitante de um lugar secreto que fica perto e longe e onde as cores não se parecem com as do nosso universo, morador do mundo que prefere a palavra abandonar ao verbo partir. O amigo zombou dele, disse que engolir o sol era fácil, que difícil era engolir uma dúzia de limões sem fazer careta. Mas ele teimou, argumentou que o sol é quente, bem mais difícil de engolir.

O texto inteiro está aqui.



Escrito por ana às 00h28
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Todo sentimento e as partes

Obrigada aos que apareceram na terça no Don Camaleone. Espero que todos tenham se divertido como eu.



Escrito por ana às 01h20
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namorada futebol clube

Uma das ilustrações da Mariana Mauro que mais gosto é esta, feita há uns bons anos para a crônica Namorada Futebol Clube. Texto e desenho estão no capítulo As Escolhas. O livro tem cinco capítulos - As Escolhas, Os Amores, As Palavras, O Tempo e A Imaginação -, com seis textos cada.

Lançamento dia 30, no Don Camaleone.

 

 

 

(...)

Vestido florido de gola em V, era isso, e tudo resolvido. Dizia o adeus dos justos, virava outra e partia para outro, que detestava futebol tanto quanto as baboseiras do cinema de arte, que sonhava em ser DJ nas areias de Ibiza, que ouvia música eletrônica, Radiohead e, às vezes, vozes. Adeus Mozart, adeus Beatles, adeus Stones, adeus Armando Nogueira, au revoir Merlot, bonjour LSD.  Era assim, desde sempre, a minha amiga.



Escrito por ana às 23h54
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prefácio

"Os textos são formas vivas que murcham e se entristecem, se não encontram os leitores apropriados. Por essa razão, o escritor tem a responsabilidade de cuidar para que seus textos sempre se exponham de modo que alguém, que se identifique com eles, possa vê-los, acariciá-los, mimá-los, enfim, participar de suas existências como se deve fazer com os gatos, os bebês e as flores.

E, às vezes, é assim: o escritor, zeloso pela vida de suas pequeninas criaturas, põe os textos em exibição nos mais diversos lugares. Mas, sempre suspeita de que, estando esparsos, eles não são vistos de modo suficiente para que possam reviver e brilhar. Nunca tem a certeza. Esse é o dilema.

E que faz, então, o escritor? Colhe, aqui e ali, alguns de seus textos. Escolhe os que mais o enternecem, os que mais o enchem de felicidade, os que mais o entristecem ou os que mais se parecem com aquilo que ele julga que são pedaços de alma. Ele os junta debaixo de um título comum como se juntam, em uma caixa, certos caramelos que quando postos na boca, maravilhosamente, se transformam em pedras preciosas verdes, azuis e vermelhas".

(...) 

Trecho do lindo prefácio escrito pela Bernadette Lyra para o livro Todo Sentimento.

Que honra.



Escrito por ana às 05h06
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de volta

Tudo começou aqui mesmo, neste www.todosentimento.zip.net, em 2004. Atualizei, apaguei, abandonei, voltei, larguei de novo, estas coisas. E ele então virou um livro, que vou lançar no próximo dia 30, na forneria Don Camaleone, em Vitória. Ficção misturada com realidade, vida, novela, canções, sentido, ilustrações lindas da Mariana Mauro, saudade, alegria, o filme que acabei de ver, a edição de bolso de "Alice no País das Maravilhas", o estrago do mundo, a insônia, o desgosto com as letras maiúsculas, tudo registrado, enfeitado, inventado ou reproduzido com maior, menor ou nenhuma fidelidade aos fatos, "life is very short, there's no time for fussing and fighting, my friend".

O livro, esquema Radiohead, vai custar quanto cada um puder ou quiser pagar por ele.

Apareçam.



Escrito por ana às 23h39
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sonhos

Então fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Pensei, por um momento, que estávamos gastando à toa uma rara manhã sem cartão de ponto, e que havia faxina pra fazer, supermercado pra comprar, bronze pra pegar, sono pra pôr em dia, armário pra colocar ordem, papéis pra jogar no lixo, poeira pra tirar e uma penca de outras obrigações supostamente mais urgentes do que ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar.

A casa fica na Cidade Alta e custa pouco para o seu tamanho. Uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas idéias talvez bastassem para transformá-la num centro cultural com livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar macarrão, parede pra pendurar quadros, e num passe de mágica “O Livro do Riso e do Esquecimento”, a banda dos novos amigos, a receita daquela tarde e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

Àquela altura, parecia perda de tempo sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos dentro do prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo. Acontece que não era. Casa, quadro, macarrão, estante, microfone, prato, parede, “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Daniel Senise, banda, biblioteca, varanda, cozinha, sala, mágica, receita, samba e rock eram qualquer coisa, menos perda de tempo. Eram sonho.

Sonho, que o dicionário em determinado momento define como seqüência de idéias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega, é aquela casa ajeitada com a gente dentro, é um sofá novo pra rever os DVDs do Chaplin durante os dias de vento sul, é a Amy Winehouse cantando sóbria no Brasil, é a certeza de um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, é a esperança de que hoje à tarde as coisas vão voltar a ser como antes, é a trégua das insônias que pesquisadores da Universidade Duke disseram nesta semana que aumentam risco de doenças cardiovasculares nas mulheres. (Que medo).

Sonho é a volta de um antigo amor ou a chegada de um novo, é justiça, liberdade e política decente, é ar puro e nunca mais sofrer de rinite, é música o tempo todo, bolinho de doce de leite com Coca Cola, amigos de verdade, uma casa numa ilha sobre o mar, o sol, o desapego e a digestão das coisas que fazem o estômago doer, é um anjo da guarda por perto, um carro limpo, revisado e sem bancos que decepem os dedos, é acordar sem despertador depois de quantas horas forem necessárias; é tanta coisa que coloca faxina, fogão, supermercado, conta, lixo e o mundo inteiro no chinelo.

Sonho talvez seja ser um pouco criança às vezes, porque os anos, as planilhas e as tarefas nos obrigam a parar de imaginar, e é preciso cuidar disso, manter um troço de nome estranho que descobri estes dias numa revista: neotenia, capacidade de um animal de manter, na idade adulta, características típicas de sua forma jovem, sejam elas as brânquias externas das salamandras ou a vontade de aprender, a mania de rir e o hábito de se encantar até diante das coisas mais simples dos (alguns) seres humanos.

E então – Eduardo Galeano tem toda a razão – não haveria noite que não fosse vivida como se fosse a última, nem dia que não fosse vivido como se fosse o primeiro.

São Paulo, 19 de junho de 2008

A

o som de Marina de La Riva, Sonho Meu

http://br.youtube.com/watch?v=mx7K1WgCkJQ



Escrito por ana às 23h25
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amy, b side

Eu tinha feito uma primeira versão do texto sobre a Amy Winehouse que publiquei outro dia na coluna Feminices, da Paradoxo (http://www.revistaparadoxo.com/materia.php?ido=5526). Resolvi postar aqui, pra acompanhar a linda (pra variar) ilustração que a Mariana me mandou e infelizmente não deu tempo de colocar lá.

ilustração: mariana mauro www.flickr.com/photos/marianamauro

Meu ex-vizinho costuma dizer que a Amy Winehouse é a mulher ideal: canta bem, tem estilo e bebe junto. Verdade que o beber junto dela ultrapassa (e muito) os limites estabelecidos pelo bom senso e pela Organização Mundial das Mentes Sãs em Corpos Sãos, e que o resto da vida acompanha o (des)ritmo, mas a dona encrenca é de fato adorável, né não?

 

Cool até o caroço, ela exibe o modelão anos 60 com flor no cabelo e tudo, ri da própria estupidez, confessa os próprios vícios, chora os amores frustrados acabada no chão da cozinha, celebra a boemia que, de um jeito torto, dá algum sentido a sua vida e foda-se o resto.

 

A Amy – o Zé tem razão – é demais. Matou de cara a charada de que o amor é um jogo perdido, aprendeu na marra que às vezes precisa morrer uma centena de vezes, entendeu que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto é difícil colocar as coisas em ordem com a sua (dele) voz na minha (dela) cabeça. “What kind of fuckery is this?”.

 

Ela sofre, coitada.

 

“Depois do último, acho que é impossível um homem me magoar. Não dói a sério, é só incrivelmente irritante”.

 

Boto fé.

 

Porque o fim de determinados amores de fato irrita mais que dói, e nessas horas, minha amiga, fica difícil saber o que fazer com o Diário do Futuro Compartilhado, porque não há mais futuro, muito menos partilha; com o retrato do sorriso azul, porque não há mais retrato, muito menos azul; com a saudade absurda que franceses, chineses, paquistaneses e dinamarqueses nem têm no dicionário e a gente sente que é uma beleza.

 

Diva inesperada, a Amy usa suas canções como terapia escancarada: confusa e estranha (engraçado, não?), coração roubado, apenas bons amigos, deprimida como uma enxaqueca (hein?). A comparação é bizarra, mas confesso que não me sai da cabeça: ela me lembra aquela musiquinha do QI de Abelha; diante de um amor, é capaz de gritar, de ofender e machucar, mas não de esquecer, é capaz de ser ridícula até não agüentar, bater com a cabeça na parede, fingir que não é inteligente, pensar em vingança e traição, com o objetivo nobre e corajoso de agradar o coração de um sujeito X, mesmo que ele não mereça (e ele quase sempre não merece).

 

E quem às vezes não é?

 

Vitória, 24 de maio de 2008

Ao som de The Gilbertos, Deite-se ao meu Lado



Escrito por ana às 20h23
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guga

 

Fiquei comovida com a despedida do Gustavo Kuerten. Faz uns dias já, é verdade, mas de vez em quando volto a pensar na imagem dele aos prantos, “quando eu estou aqui vivendo esse momento lindo” de trilha sonora, a derrota para aquele argentino, um honestíssimo “não é que eu não queira jogar mais; desculpa, mas não consigo mais”, o derradeiro discurso em cadeia nacional.

Deu dó.

Guga tem 31 anos e uma lesão crônica no quadril. Diz que viveu intensamente o tempo em que jogou, agradeceu família, namorada e técnico e saiu de cena, milionário, realizado e aposentado numa idade em que Deus, o mundo e a torcida do Flamengo, quase sempre, experimentam os primeiros resultados do trabalho duro, formam família, amam, desamam, colecionam as primeiras desilusões cruéis de verdade, aprendem o peso do fim do mês, a delicadeza dos acasos, a esquisitice dos outros e o poder indiscutível do tempo.

Aos 31, o deslubramento felizmente já caiu de moda e, apesar das TPMs (dos homens, inclusive) e neuroses, cada vez importa menos o que os outros dizem das roupas, dos cabelos, dos brincos e dos hábitos. O espelho no geral exibe mais leveza que antes, apesar das tristezas a mais, do cansaço estampado na cara de um dia inteiro de trabalho e contas vencidas, pneu furado ou amor falido.

Os pés ficam no chão com mais freqüência e o romantismo ocupa um pouco menos de espaço, embora elogios escancarados ainda ruborizem um bocado (timidez, pra quem tem, não tem remédio, nunca), embora – sempre o amor – a barriga trema, a saudade aperte, aquele abraço faça uma falta danada no domingo à tarde.

Aos 31, o corpo sabe o que diz com suas dores, seus sorrisos e seus arrepios, as mãos sabem a força do toque, os olhos sabem a verdade das coisas, o coração sabe que existem outros amores além do grande amor. Inteligências e belezas importam sim (aos 31, antes e depois), mas de outra maneira. As escolhas, as pequenas felicidades, o passar dos anos, amigos, filmes e canções importam mais, tornam, conforme me disseram outra noite, a própria inteligência e a própria beleza mais intensas.

Aos 31, padrão de fotonovela vira piada, as perdas do passado viram piada, até as rugas viram piada. Afinal, você sabe quantos sorrisos, quantos analgésicos, quantas rinites e quantas noites diante do computador fizeram nascer aquele sulco no meio da testa, aquele talho no meio do nariz, aquela prega em torno da boca, e sulco, talho, prega, rinite, analgésico, sorriso, noite, testa, nariz e boca, cedo ou tarde, se transformam em buracos carregados de história.

Gustavo Kuerten carrega os seus, possivelmente, e vai saber o que fará com eles a partir de agora (que será?), quais sonhos alimenta, quais escolhas pretende, que futuro planeja, tão absurdamente cedo para deixar para trás um troço que, segundo ele, simboliza sua vida inteira.



Escrito por ana às 19h57
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um laerte

 

 

"Odeio seu jeito de falar

E seu cabelo sem corte
Odeio como dirige meu carro
Odeio quando fica a me olhar
 
Odeio suas botas de combate
E como lê minha mente
Te odeio tanto que isso me abate
E até me faz rimar
 
Odeio por sempre ter razão
Odeio quando mente
Odeio quando me faz rir
E mais ainda quando me faz chorar
 
Odeio quando não está perto
E quando não me liga
Mas, mais que tudo, odeio o modo como não te odeio
Nem um pouco, nem por um segundo, nem nada"


Escrito por ana às 16h26
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dois laertes

 

 

"Por mais que se mova o trem, tu não te moves de ti"



Escrito por ana às 16h26
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